Xereta.

Encarava o teto, cansada. Após voltar do trabalho, aquilo era tudo o que ansiou durante todo o dia: tranqüilidade, cama e música. Pegou o iPod jogado logo ao seu lado, deitou-se de bruços e começou a buscar algo gostoso e que relaxasse seus ouvidos – que passaram a tarde inteira ouvindo gritos de crianças.

Uh, pensei que tivesse tirado a senhorita daqui…” falou, olhando para o aparelho. Lá estava ela, Dismantle. Repair. da banda Anberlin. Gostava da música, da letra e – ela não admitia essa parte – das lembranças por trás dela. De repente, viu-se em seu terceiro ano do Ensino Médio mais uma vez.

Deprimida, encontrava-se com os braços cruzados, a cabeça deitada sobre eles e os fones enterrados nos ouvidos. Mais tarde sentiria dor na coluna por estar sentada daquela forma na carteira da sala de aula, mas não estava preocupada com isso. Queria apenas ficar ali, sozinha com sua música, enquanto os amigos aproveitavam o intervalo.

Oh oh, things are gonna change now for the better” cantarolou mentalmente.

Sentiu uma leve cutucada na cabeça.

Não levantaria. Talvez, se pensasse que estivesse dormindo, não tentaria importuná-la.

Outro cutucão. E outro. A pessoa era insistente.

Levantou a cabeça colocando todo o seu desagrado por fazê-lo em sua expressão. Desagrado esse que logo foi substituído pela curiosidade e surpresa. O que ele queria, afinal?

Que foi?” perguntou, pausando a música e tirando um dos fones.

Eu é que te pergunto” disse, sentando-se na carteira da frente. “Aconteceu alguma coisa?”

Não, nada” mentiu. “Por que você não ta lá embaixo com os outros?”

Não tava afim. Sério, o que aconteceu?”

Já falei que não foi nada.”

Fala. Eu sou xereta.”

Sua surpresa aumentava a cada questionamento. Ele nunca fizera aquilo. Nunca demonstrara interesse em saber como ela estava ou se algo havia acontecido. Conteve a vontade de responder “Você aconteceu. Você nasceu, querido.” diante das perguntas. Afinal, ele era a causa de seu desanimo. Ele e sua eterna indiferença.

De verdade? Eu estou bem” agora ela falava sério. Ousou abrir um pequeno sorriso. “Agora eu estou bem.”

Apesar de tudo, lembrava-se daquilo com carinho. Aquela havia sido a primeira – e única – vez que ele demonstrara alguma preocupação com ela e isso fazia com que uma onda de calor invadisse seu íntimo, mesmo tanto tempo depois do ocorrido.

Como seu amigo disse uma vez mesmo? Ah, sim. Nós sempre sentiremos um carinho especial por alguém de quem gostamos muito. Ele estava certo. Ainda que não visse mais o menino que um dia fizera seu coração bater mais forte, continuava sentindo algo especial por ele. Apesar de tudo, sim, continuava e continuaria sentindo.

Rolou na cama com um sorriso bobo no rosto.

Things are gonna cha-aaaaa-aaange!” cantou com toda a sua vontade.

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